É seguro comprar uma picape chinesa hoje?

Muitas marcas chinesas estão chegando ao mercado brasileiro com as suas picapes. Vale a pena comprar agora ou esperar?

A indústria automobilística é feita de grandes marcas, tradicionais, conhecidas, confiáveis, e algumas até que criaram uma imagem tão forte com o consumidor que até o desenho de sua grade, ou mesmo o logo da marca, já nos faz lembrar a quem pertence o modelo.
Mas, há alguns anos muitas marcas novas chegaram ao mercado brasileiro, de origem coreana, indiana, chinesa e outras. Marcas desconhecidas ou até então sem grande presença no mercado. Muitas chegaram na esteira da explosão de vendas dos carros elétricos, outras com forte apelo de preço e uma tecnologia que chama a atenção, mas algumas de qualidade bastante duvidosa.
Mas, qual a segurança que uma marca nova nos dá ao comprar um carro, que não é um produto barato? Além do investimento, que pode sofrer forte desvalorização com o fim da marca, ainda temos os problemas decorrentes da falta de assistência técnica e das dificuldades para conseguir peças de reposição.

O risco pode existir também para um fabricante tradicional. Vimos a Ford fechar as suas fábricas no Brasil, tirar repentinamente modelos de produção e concessionárias falirem, além de muitos problemas com falta de peças e pós-vendas. Mas, a marca ainda existe e até importa carros para o Brasil.

Porém, tivemos muitas marcas que marcaram presença no Brasil, algumas com forte divulgação em programação bastante popular em canais de TV, e que encerraram a suas atividades, faliram ou sumiram do Brasil, deixando consumidores sem assistência ou peças, vendo o seu patrimônio desvalorizar e ir definhando aos poucos até ser abandonada num depósito de carros velhos, ou passaram por situações bem tumultuadas.
Entre outras, podemos lembrar de algumas que muitos devem conhecer, a JAC, SSangyong (com a sua picape Actyon), Chana/Changan, Lifan, Geely, Mahindra, Daewoo, Daihatsu, Asia Motors, Lada e tantas outras.
Recentemente vimos novas marcas chegarem e também rapidamente irem embora, como a Seres, que chegou aqui em 2023, e a Neta Auto.

Por outro lado, vemos marcas já consolidadas no Brasil, inclusive investindo muito aqui e fabricando diversos modelos em nosso país, e com presença marcante nas ruas, como a Toyota, Volkswagen, Nissan, Mitsubishi, Chevrolet, Renault, Citroen, Honda, Fiat, Peugeot e tantas outras de igual importância e de forte confiabilidade, com muitas décadas no mercado.

Estamos vendo agora muitas novas marcas chegando com modelos de picapes até com preços bastante competitivos, mas também estamos acompanhando uma crise no segmento automobilístico na China.
Stella Li, vice-presidente executiva da BYD chinesa, recentemente anunciou que prevê um “banho de sangue” na indústria de carros chinesa, com mais de 100 marcas saindo do mercado nos próximos anos. A própria BYD passa por um momento conturbado, com fechamento de fábricas na China por conta de um planejamento estratégico equivocado, além de lucro líquido e receita abaixo do esperado no segundo trimestre desse ano, por conta da pressão do governo Chinês contra práticas pouco aceitáveis que vinham sendo adotadas pelas indústrias de automóveis da China, e pela forte queda de preços dos modelos elétricos.
A própria previsão de vendas da BYD para este ano caiu de 5,8 milhões para 4,6 milhões de veículos, segundo o banco Citi.

Tivemos, ainda, as declarações bombásticas ao site Sina Finance, do bilionário chinês Wei Jianjun, dono e presidente da Great Wall Motor e de outros negócios. Em maio deste ano, ele afirmou que a indústria automobilística chinesa está “doente e à beira do caos”, inflando os seus números de negócios com vendas falsas, encobrindo, assim, prejuízos crescentes que implicam em cortes nos padrões de qualidade, o que poderia repercutir em questões de segurança também. Wei fez ainda um paralelo da situação atual do segmento com o famoso episódio da Evergrande, uma poderosa incorporadora imobiliária chinesa que manipulou os seus balanços, alterou resultados e, por fim,  afundou em dívidas bilionárias indo à falência no ano passado, e falindo com várias outras empresas também.

O dono da GWM denunciou a prática empregada por muitas montadoras de carros de vender carros zero-quilômetro como sendo usados, e assim praticando descontos de 20% até 30%.
Esta manipulação, que remete à uma ideia de fraude comercial, é conhecida no nosso mercado como “rapel”. A montadora emplaca os carros que ainda estão para vender com o intuito de aumentar o seu “número de vendas”, enganando o mercado.

A China, buscando incentivar a sua indústria automobilística nas últimas duas décadas, financiou fortemente o segmento, e isso provocou um crescimento muito rápido. Porém, esse modelo de incentivo do governo passou a apresentar um desequilíbrio perigoso, com a produção superando a demanda real, provocando um excesso de oferta com efeitos graves como queda nos lucros, e uma guerra comercial que jogou os preços lá para baixo.
Estima-se que os fabricantes estão enviando volumes de carros de 30% a 40% maiores do que as revendas conseguem vender, e as revendas afirmam que os prejuízos já somam o equivalentes a US$ 20 bilhões, com muitas  falências.
As maiores montadoras chinesas têm endividamento hoje que varia de 60% a 80% de seus ativos.

Assim os pátios das concessionárias estão abarrotados de modelos zero-quilômetro emplacados mas sem donos. Estes veículos são anunciados aos milhares em sites de negociação de usados. Alguns também estariam sendo redirecionados à exportação, conferindo às montadoras o direito à devolução de impostos.

O fato é que hoje vivemos uma rápida transformação na indústria automobilística, e o consumidor agora se vê diante de “ofertas generosas” e de tecnologias recentes, que são atrativas, mas podem trazer surpresas desagradáveis no futuro. Não é só preço, não é somente o tamanho da tela do multimídia ou das frescuras tecnológicas que estes modelos oferecem que devem chamar a atenção do consumidor, mas a confiabilidade e a tradição da marca, a certeza de que não se trata de mais uma aventura empresarial, de um modismo ou de um oportunismo.

Certamente veremos muitas picapes novas chegando ao mercado, de marcas que nunca ouvimos falar, e a imprensa vai divulgar estes modelos, na sua obrigação de informar ou motivada por “benefícios” que lhe são dados para destacar estes modelos. É preciso ter cuidado com as escolhas.
Não basta saber qual o tamanho da tela do multimídia, qual a potência ou o torque do motor, como é o acabamento, mas é preciso saber quem está fabricando, qual a história e o tempo de vida da empresa, como está a sua confiabilidade no mercado, se ela está presente aqui como fabricante ou é uma mera importadora, ou se ainda produz aqui em regimes pouco interessantes, como o CKD ou o SKD, onde quase tudo vem pronto de fora.

Quando uma fábrica produz aqui de verdade, e não juntando partes como bloquinhos de Lego, fornecedores brasileiros são desenvolvidos, e a produção local de peças favorece muito a reposição no futuro, mesmo que o fabricante deixe de produzir o modelo.
Com tanta “tecnologia” muitas vezes descartável e feita a base de componentes eletrônicos sem reparos, com projetos exclusivos, até um simples multimídia que hoje controla faróis, ar-condicionado e outras funções do carro pode inviabilizar o seu uso se ficar indisponível no mercado.
Tudo isso deve ser avaliado antes de fazermos as nossas escolhas.

 

 

3 Comentários

  1. Acredito que picapes eletrificadas vão ficar nas mãos dos chineses, que estão com mais projeção nesse mercado, mas os modelos a diesel podem ter dificuldades para se firmarem aqui principalmente por conta do nosso diesel ruim.

  2. Tem muita coisa para acontecer ainda no mercado mundial de carros. A indústria europeia, japonesa e americana está acordando para o fato de que se não fizer nada, não existirá mais em poucos anos.

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